Fernanda taube linero

Fernanda Taube Linero é formada em Arquitetura e Urbanismo pela PUC-PR, com um intercâmbio na França, onde estudou na Strasbourg School of Architecture. Inicialmente interessada em urbanismo, ela descobriu sua paixão por projetos arquitetônicos durante o intercâmbio. Atualmente trabalha na Nommo Arquitetos, onde coordena sua equipe e desenvolve projetos de diversas escalas. Nessa entrevista, Fernanda nos conta sobre como sua resiliência e seu espírito comunicativo a impulsionaram a buscar seus objetivos, além de compartilhar algumas estratégias eficazes de comunicação com os clientes.

Luana: Você pode me contar um pouco mais sobre a sua formação? Como você escolheu estudar arquitetura?

Fernanda: Desde pequena, eu dizia que queria ser arquiteta, mas, na verdade, eu sempre quis trabalhar com coisas bonitas, sem saber ao certo com o quê. Às vezes eu falava que queria trabalhar com moda, outras vezes com arquitetura, mas eu nem sabia direito o que significava ser arquiteta. Quando chegou a hora do vestibular, eu tinha acabado de voltar do meu primeiro intercâmbio, na França, onde fiz o terceiro ano do ensino médio, que lá é dividido por especialidades. Escolhi uma especialidade chamada “literaire”, focada em humanas, onde estudei muita filosofia, história e tive aulas práticas de artes. Ao retornar ao Brasil, pensei em seguir na área de humanas. Como também gostava muito de escrever e não sabia exatamente o que queria fazer, acabei optando por comunicação social – jornalismo. Foi em uma época em que os blogs e o consumo de conteúdo na internet estavam começando. Se tivesse continuado, talvez hoje eu fosse uma influencer [risos].

Só que, na prática, o jornalismo era muito diferente do que eu imaginava. A faculdade foi uma grande decepção, assim como o mercado de trabalho.

L: O que quebrou as suas expectativas no curso?

F: Primeiro, quando eu dizia que queria trabalhar com moda ou beleza, isso era muito invalidado, como se fosse algo fútil. Além disso, o curso era muito rígido, focado na TV. O caminho era ser jornalista de TV, estagiar em jornal, mas isso não condizia com o mundo em transformação. Fiquei muito decepcionada e saí da faculdade de jornalismo. Sem saber ao certo o que queria, fui trabalhar em uma loja no shopping, porque sempre gostei de trabalhar e queria ser independente. Nessa época, conheci uma garota que estava estudando arquitetura, e lembrei dessa vontade que tinha de talvez trabalhar nessa área. Conversei com algumas pessoas e decidi estudar arquitetura, mas foi uma decisão tomada sem saber bem o que era. Gostava da ideia de trabalhar com coisas bonitas e com urbanismo e a cidade, mas, olhando para trás, vejo que foi um tiro no escuro.

Assim que entrei na faculdade, quis trabalhar, então sempre busquei oportunidades com os professores, como projetos de pesquisa. Gostava muito mais da prática do que o que a faculdade oferecia, o que me levou a fazer intercâmbio já no segundo ano.

L: Caramba, foi bem cedo! Como foi o intercâmbio?

F: Consegui uma bolsa de estudos pelo Ciência sem Fronteiras e fui para Estrasburgo, na França. Eu gostava do curso de arquitetura no Brasil, mas foi na França que descobri minha paixão por arquitetura, especialmente por projetos. Antes, eu gostava mais de urbanismo e paisagismo, mas não tanto de projetos em si. Lá, as pessoas eram muito apaixonadas por arquitetura, algo que eu não via tanto no Brasil. Acho que ter feito jornalismo antes, trabalhado um pouco e visto outras coisas, me fez entrar na faculdade de arquitetura mais segura. Senti que na França, muitos alunos eram um pouco mais velhos, não tinham necessariamente vindo direto do colégio, e isso os tornava mais interessados. As pessoas na faculdade me trouxeram muitas referências, eram todas muito boas. Eu, por outro lado, me sentia muito inexperiente [risos], pois não sabia mexer em nenhum software direito, e estava apenas no segundo ano e acabei entrando na turma do terceiro ano lá. Eles já usavam ArchiCAD, faziam renders, enquanto eu ainda fazia projetos à mão na PUC-PR. A metodologia era muito diferente. Lá, os ateliês tinham cerca de 20 alunos. Pedíamos orientação aos professores e, no final, apresentávamos os projetos para uma banca com todos os alunos do curso, aproximadamente 100 pessoas, em francês. Foi terrível, mas incrível ao mesmo tempo, pois me permitiu conhecer os projetos de outras pessoas.

L: Quais matérias você fez na França?

F: Eu não fui pensando em validar as disciplinas no Brasil, mas sim em seguir a grade que eles ofereciam. Fiz muitas matérias de projeto, algumas teóricas, e outras focadas em sustentabilidade, algo que ainda não estava em pauta aqui. Inclusive, a faculdade nos levou à Freiburg, na Alemanha, onde visitamos um bairro totalmente sustentável. Esse ano abriu muito minha mente e me fez voltar apaixonada por arquitetura. Quando voltei, estava encantada e queria me aprofundar nas matérias de projeto. Acho que, no Brasil, não temos tanto acesso a experiências arquitetônicas como lá.

L: Acredito que os estudantes que convivem com espaços bem projetados são privilegiados. Aqui não temos tanto acesso a esses projetos.

F: Exatamente! É curioso porque a escola lá era um projeto contemporâneo, um prédio antigo que passou por retrofit em parte, com uma nova construção em outra. Durante as aulas, os professores apontavam para o edifício para mostrar soluções de projeto. Essa experiência foi muito rica e acho que foi lá que consegui entender de fato o que é arquitetura.

L: Por quais lugares você passou e onde trabalhou?

F: Quando voltei do intercâmbio, queria fazer estágio. Logo na primeira semana, perguntei a um professor se ele poderia me indicar um. Foi assim que comecei a estagiar na Fernanda Cassou Arquitetura. Foi uma experiência muito legal, pois as arquitetas tinham muitas referências boas. Trabalhei lá por oito meses, fazendo muitos detalhamentos. Quando saí, consegui outro estágio também em interiores, indicado pela Fernanda. Nesse escritório, por ser pequeno, eu fazia de tudo: detalhamento, orçamento, imagens. Fiquei lá por mais de um ano e aprendi muito. Quando saí, foi para trabalhar na Nommo Arquitetos.

L: Como foi a sua contratação na Nommo Arquitetos?

F: Um dia, liguei para um dos sócios e disse que queria trabalhar com eles. Ele respondeu que não havia vagas, mas que eu poderia visitar o escritório para conversarmos. Na conversa, ele me sugeriu trabalhar uma semana para ver como era, e depois fui ficando. Agora, estou na Nommo há seis anos.

L: Seis anos na Nommo! Pode me contar mais sobre o seu papel no escritório e os desafios que têm superado?

F: Sou arquiteta de projetos de arquitetura e coordeno uma equipe de mais duas pessoas na Nommo. E sempre gostei de comunicação, então o atendimento ao cliente é algo que faço com prazer, pois gosto de me comunicar. Recentemente, estou tentando me envolver mais na captação de clientes, o que tem a ver com os desafios superados, pois existe o estigma de que o mercado imobiliário é dominado por homens. Tento quebrar essa barreira, mostrando que mulheres também podem fazer negócios. Mas o desafio persiste: mesmo quando um cliente chega até nós por minha causa, se há um homem na sala, o cliente tende a se dirigir a ele.

L: Isso deve ser muito frustrante.

F: Com certeza. Existe uma hierarquia no escritório, mas o que incomoda é quando desenvolvo um projeto e, em uma reunião, as pessoas não querem ouvir o que tenho a dizer. Isso me afeta, porque sinto que meu trabalho como arquiteta não é valorizado. Tem acontecido com menos frequência, mas também tem aquelas pessoas mais velhas que acham que não sabemos nada, como se a experiência dos mais jovens não valesse. Além disso, há situações clássicas de machismo. São os obstáculos que mais me incomodam.

L: Sei que você é uma mulher empoderada. Como enfrenta esses obstáculos no dia a dia?

F: Quando um cliente se refere a um homem na sala sobre o projeto, como se apenas ele tivesse feito, eu reforço que é um trabalho em equipe, usando termos como “nós pensamos, nosso projeto”. Tento não levar mais para o pessoal, porque no começo eu me inflamava muito e isso me afetava. Agora, me posiciono de forma educada, assertiva e pontual. Sempre falo no coletivo, pois tudo que fazemos é um trabalho em equipe, porque ninguém faz nada sozinho. Mas com alguns clientes, eu tento trazer uma informação que só eu sei, para mostrar que eu sei do projeto, que sei do que estou falando, de uma maneira mais subjetiva. Até porque se a gente fica muito inflamada, sempre vamos sair como histéricas, então estou tentando sair um pouco desse lugar e ser mais sutil. Em algumas situações, tem que se posicionar, assim você conquista o seu respeito. No começo, alguns clientes me interrompiam, mas com o tempo, sinto que fui me impondo e ganhando confiança deles.

Edifício B41, Nommo Arquitetos

L: Você comentou um pouco, mas como é trabalhar para o mercado imobiliário? Quais desafios têm enfrentado?

F: Há um aspecto que às vezes me desafia. O mercado imobiliário é um ambiente muito masculino, o que se torna um desafio pessoal para mim. Embora eu goste muito de interiores, também quero projetar prédios. Não quero que me digam que eu não posso; quero fazer edifícios, e ser boa nisso.

L: E em quais momentos você sentiu seu trabalho reconhecido? Ou de que forma você sente que o seu trabalho é reconhecido?

F: Acho que existem várias esferas de reconhecimento: quando você reconhece seu próprio trabalho e quando o outro o reconhece. Tenho começado a reconhecer meu trabalho e a superar um pouco a síndrome da impostora. Comecei a perceber que está tudo bem, que eu sei o que estou fazendo, e que, se não souber, posso perguntar a alguém. No início, recém-formada, eu tinha muita insegurança, mas aos poucos tenho me sentido mais segura nos espaços de trabalho, o que é algo muito positivo. Um momento especial foi quando subi na laje de cobertura do primeiro prédio que projetei. Foi emocionante.

Quanto ao reconhecimento dos outros, fico muito feliz quando visitamos a casa de um cliente e ele está satisfeito e realizado. Durante a obra, focamos muito nos problemas que surgem, mas quando a casa fica pronta e a pessoa está morando nela, é muito gratificante.

L: À medida que vamos completando os ciclos dos projetos, as inseguranças vão diminuindo.

F: E os desafios vão aumentando. Primeiro, ficamos nervosas para fazer o projeto de interiores de um apartamento. Depois, ficamos nervosas para desenvolver um prédio, depois é o BIM… [risos]

L: Exatamente!

F: Com o tempo, ficamos mais tranquilas, sabendo que vamos conseguir.

L: Você tem um mentor, uma mentora, ou alguém que te inspirou na sua carreira?

F: Minha mãe sempre trabalhou muito. Ela sempre foi uma mulher independente, com seu próprio dinheiro, sua profissão, e isso sempre foi importante para ela. Hoje, vejo que isso teve um grande impacto em mim. Desde pequena, sempre quis trabalhar. Minha mãe me inspirou muito, e mesmo com a maternidade, ela era muito comprometida com o trabalho. Acho que herdei dela esse comprometimento com tudo o que me proponho a fazer. Pode não ser perfeito, mas vou dar o meu melhor.

L: E teve mais alguma mulher que te inspirou?

F: Tem várias! Sou uma pessoa muito apaixonada e todos os dias fico encantada com algo novo. Todos os dias vejo mulheres muito talentosas em todas as áreas. Hoje, por exemplo, estava ouvindo um podcast da B3, da bolsa de valores, com a Manoela Bordasch do Steal the Look onde mulheres falam sobre negócios e dinheiro, e achei isso perfeito! Na faculdade, em particular, minhas amigas me moldaram muito. Como não sou de Curitiba, fiquei muito próxima delas. Sempre visitamos museus, exposições, viajamos juntas, cada uma com suas referências. São amizades muito ricas, que envolvem desde assistir a um filme até participar de um clube do livro e discutir um podcast. Tenho certeza de que isso me moldou muito.

L: Você tem referências de arquitetura ou algum projeto específico que te marcou?

F: Não sou tanto de pesquisar sobre arquitetura no dia a dia, fazia isso mais na faculdade. Mas quando viajo, é quando me conecto com a arquitetura. Por isso, sempre tento incluir algo relacionado nas viagens. Se vou para São Paulo, visito uma exposição ou um projeto específico; se vou para o Rio, vejo algo novo. Tento me conectar do jeito que me conectei no intercâmbio. Por exemplo, minha última viagem ao México me impactou profundamente. Sempre gostei do Luis Barragán, mas ao ver suas obras pessoalmente, fiquei deslumbrada. Ele trabalha com uma simplicidade de forma, materiais, cor e luz. Fiquei obcecada com toda a arquitetura mexicana. Também admiro muito a Frida Escobedo, achei o trabalho dela sensacional.

Sempre admirei o trabalho da Lina Bo Bardi, porque ela desenvolvia coisas além da arquitetura. E eu acho que quando ficamos melhores em outras coisas que não são arquitetura, nos tornamos arquitetas melhores. Quando fazemos outras atividades, e nos relacionamos com o outro, isso nos torna arquitetos melhores.

Estou gostando muito do trabalho da argentina Ana Smud, que tem uma realidade econômica muito parecida com a do Brasil. Gosto muito do trabalho dos portugueses, porque me identifico com o purismo que eles buscam na volumetria.

L: Você tem algum conselho ou dica para outras arquitetas que estão no início da carreira ou se formando?

F: Acho que é importante se comunicar, falar com pessoas e conhecer pessoas. Externalizar o que você quer fazer, mesmo que ainda não saiba ao certo, mas conversar e ouvir o que os outros já fizeram pode trazer muitos insights. E, acima de tudo, fazer as coisas, mesmo com medo ou sem saber exatamente como. Vá fazendo, se metendo, perguntando. Pelo menos na minha experiência, sempre haverá um aprendizado no fazer.