FERNANDA CAMACHO

Atualmente cursando a pós-graduação em Gestão de Projetos na Construção Civil na Poli-Integra da USP, a arquiteta e BIM Manager, Fernanda Camacho compartilha o que a levou a se especializar na otimização de projetos através do ArchiCAD e nos inspira com sua história de persistência e determinação.

Luana: Você pode me contar um pouco mais sobre por que escolheu cursar arquitetura e como foi essa decisão?

Fernanda: Não foi difícil, mas fiquei em cima do muro. Eu gostava muito de música e até pensei em seguir essa carreira, mas meu pai me aconselhou a escolher algo com melhor retorno financeiro. Então, considerei minhas habilidades e interesses. Gostava de matemática, geometria, e desenhava bastante. Fiz aulas de desenho focadas no vestibular. Meu pai também me deu uma revista da IstoÉ que explicava os cursos acadêmicos, e eu fazia muitos testes vocacionais na escola, que sempre indicavam arquitetura, psicologia e design. Decidi por arquitetura e no começo foi muito legal, pois entrei na turma da noite. Era um pessoal mais velho, que trabalhava, e havia uma cultura de ajuda mútua.

Quando estava para terminar o primeiro ano, mudei para a turma da manhã a pedido da minha mãe. A turma da manhã era cheia, com 60 pessoas, e muito competitiva, o oposto da noite.

L: Você fez estágio durante a faculdade?

F: Fiz, mas poucos. Tive problemas de saúde mental e quase tranquei o curso várias vezes. Sentia que talvez essa não fosse minha vocação. No meu primeiro ano de projeto, tive aulas com professores difíceis, que não me ajudavam a entender como projetar. Isso impactou minha confiança e saúde emocional, e comecei a reprovar em projeto. No terceiro ano, trabalhei no Escritório Modelo de Arquitetura e Design da PUCPR. Foi ótimo, pois era um ambiente integrado com alunos de design gráfico, de produto, entre outros, e os professores eram muito confiáveis e me davam segurança. Foram 8 meses de estágio muito positivos.

L: Como foi o seu intercâmbio durante a faculdade?

F: O intercâmbio foi maravilhoso; eu poderia falar sobre isso por horas [risos]. Morei em Belfast, na Irlanda do Norte, com o Eduardo, que trabalha com a Paula Morais. Inicialmente, pensamos em ficar num alojamento estudantil, mas a Belfast School of Architecture tinha dois campi, um no centro de Belfast e outro em uma cidade próxima, o que exigia pegar trem. Optamos por alugar uma casa a cerca de 50 minutos a pé da faculdade, embora houvesse um ônibus que nos deixava a 10 minutos da faculdade, gostávamos de caminhar.

A faculdade era incrível. Quando chegamos, estava acontecendo a Virada Cultural de Belfast, com artistas por toda a cidade. Havia DJs, grafiteiros e apresentações de dança irlandesa. A cidade era vibrante, com muito incentivo à cultura. Na acolhida dos intercambistas, conhecemos pessoas dos Estados Unidos, Alemanha, França, Zimbábue e África do Sul.

Sobre as aulas, foi um choque. Estava acostumada com a grade curricular de 10 matérias por semestre no Brasil, mas lá eram apenas 2 matérias. As aulas eram em período integral, das 9 da manhã às 5 da tarde. E a faculdade era um grande ateliê aberto, sem divisórias entre salas, com várias mesas e maquetes. Os professores enviavam os trabalhos por e-mail antes das aulas, e fazíamos leituras prévias em casa. As turmas tinham no máximo 28 pessoas, divididas em grupos para conversar com os professores em horários marcados.

No Brasil, eu fazia projetos de 20 pavimentos na faculdade, enquanto lá, o primeiro exercício era escolher um tema entre sólidos, planos e molduras. A partir do que eu escolhesse, eu deveria ler uma análise de projetos de arquitetos que trabalhavam com um desses temas. Por exemplo, eu escolhi volumes, então li um texto sobre como projetar a partir de volumes. Depois eu deveria analisar o projeto da casa que os professores enviaram, identificando os planos, recortes, encaixes em planta e cortes. O exercício pós análise era justamente desenvolver um projeto entre 300-350m² em um terreno fictício, utilizando o tema que eu escolhi no início da matéria. Lembro que eu estava fazendo aquele projeto e em uma assessoria, a professora riu da minha cara porque eu queria colocar uma rota de fuga, então ela me disse para não me preocupar com aquilo no momento, que era a hora de exercitar a criatividade, o senso crítico e estético. Ela disse que se fosse satisfazer minha culpa, eu poderia colocar uma escada com uma porta abrindo para fora [risos]. O intercâmbio realmente mudou minha perspectiva sobre arquitetura.

L: O incentivo ou a crítica dos professores influenciam muito os estudantes e a nossa formação. Quais outras matérias você estudou no intercâmbio?

F: A outra matéria era de reflexões e críticas, ministrada por uma professora alemã muito rígida. A aula durava uma manhã inteira, uma vez por semana, e abordava análises históricas e filosóficas aplicadas às artes e à arquitetura. Lembro-me de uma aula sobre Zeitgeist, o espírito do tempo, onde a professora relacionava obras de arte do final da Revolução Industrial com a arquitetura. O exercício final dessa matéria era fazer uma monografia sobre um tema apresentado no curso. Escolhi o tópico de utopia e falei sobre Brasília, uma cidade construída do zero com um grande sonho.

L: Que legal, Fernanda! Uma ótima relação!

F: Arquitetura não é só o projeto; envolve vários contextos culturais e vai muito além disso.

L: E como foi o seu início de carreira? Onde você trabalhou e como esses lugares te influenciaram?

F: Trabalhei em poucos lugares antes de entrar na Nommo Arquitetos. Me formei na metade de 2019, mas não conseguia ser contratada. Nessa época, o Ismael, que tinha sido meu professor na PUC, abriu o Atelier 1901. A proposta deles fazia muito sentido para mim, pois eu buscava mais experiência em projetos de arquitetura. Entrar lá foi ótimo porque os sócios captavam os clientes e nós fazíamos os projetos, dividindo uma porcentagem. Havia uma dinâmica de concurso, onde o cliente via as propostas e escolhia o projeto final. Fazíamos workshops semanais, visitávamos showrooms e tínhamos autonomia para trabalhar e administrar as entregas. Meu primeiro projeto de reforma foi para um cliente de Matinhos-PR, que gostou da minha proposta e fechou o projeto comigo. Embora a reforma tenha sido interrompida pelos clientes, aprendi bastante sobre interiores trabalhando no Atelier 1901.

L: Você ficou por quanto tempo no Atelier 1901? Você já projetava utilizando o ArchiCAD?

F: No total, foram dois anos. Na época, meu tio fechou o contrato da casa dele comigo, e eu estava desenvolvendo no SketchUp, mas não queria mais usar esse programa. Uma amiga tinha feito o TCC no ArchiCAD e aprendeu enquanto fazia o projeto. Eu tinha feito um curso de Revit, então pensei que o princípio era o mesmo e comecei a procurar vídeos no YouTube para aprender sozinha. No Atelier 1901, conheci uma amiga de uma amiga que é arquiteta e trabalha com ArchiCAD. Ela se ofereceu para me dar aulas. Depois de algumas aulas, perguntei se ela tinha algum trabalho para me passar ou se conhecia alguém procurando arquiteta. Algum tempo depois, ela me chamou para trabalhar com ela.

Ela e o sócio me contrataram e me colocaram para assistir a um curso de ArchiCAD. Fiz isso por um dia e logo depois já tinham demandas de projetos para me passar. No começo, fiz modelagem de projetos de interiores, programando materiais, e depois passei a desenvolver projetos executivos, legais e até modelagem de estrutura.

L: Como você começou a trabalhar na Nommo Arquitetos?

F: Eu tinha acabado de sair daquele escritório onde fiquei por seis meses, conforme o acordo. Comecei a procurar outras oportunidades e estava chateadíssima por não conseguir ser contratada novamente. Então, a Fernanda Linero me mandou uma mensagem explicando que precisavam de ajuda extra para desenvolver os projetos executivos no escritório e me chamaram para uma entrevista. Eu estava bem nervosa, mas deu certo.

Edifício Zait, Nommo Arquitetos.

L: Que legal! E hoje você tem um papel fundamental na Nommo, auxiliando todos os arquitetos com o ArchiCAD. O que te incentiva e inspira a pesquisar mais sobre isso?

F: Acho que o ArchiCAD é um programa completo. A única questão é otimizar o uso do programa para melhorar nosso fluxo de trabalho. No curso, é uma coisa; outra é o desenvolvimento de um projeto real. Quando entrei na Nommo Arquitetos, comecei a exercitar mais. Ficava frustrada por não conseguir modelar um brise correto ou fazer um detalhe específico e tinha que improvisar. Isso me instigava a buscar soluções e virava um desafio encontrar uma resposta para aquele problema. É algo que me traz muita satisfação cada vez que aprendo a modelar algo novo. Tenho muita persistência para essas coisas.

L: Você é muito persistente, Fer! Você também fez o curso da Graphisoft, certo?

F: Sim. O curso oferece certificação, garantindo que você estudou sobre aquele tema específico. Se eu quiser trabalhar com desenvolvimento BIM em outro país, a certificação prova que tenho essa habilidade, mas é apenas um título.

L: E o que você aprendeu nas aulas?

F: Focamos no BIM, abordando testes de exportação, modelagem de elementos para extrair quantitativos, e como inserir informações no modelo. O curso também ensinou sobre implementação em escritórios, fluxo de trabalho, conexão de equipes e montagem de manuais e BEP.

L: Pode me contar mais sobre a pós-graduação que você vai começar? Onde é e qual o assunto? Quais habilidades você está buscando?

F: É uma pós-graduação na Politécnica da USP, de Gestão de Projetos na Construção Civil. Vi um perfil no LinkedIn de um homem com um currículo incrível, e isso me instigou a buscar mais. Perguntei qual curso ele estava fazendo, e era essa pós que vou começar. O curso abrange matérias de gestão de projetos, liderança de equipe, coordenação de projetos, processos de obra e tendências de tecnologia da construção. Achei sensacional que juntaram gestão de projetos com construção civil.

L: Que currículo abrangente! Outra pergunta, você tem alguma dica para arquitetas que estão se formando agora?

F: Tenho duas dicas. A primeira é tentar absorver o máximo possível das coisas. A faculdade não é fácil, e devemos focar nas dificuldades, porque onde temos facilidade, as coisas fluem naturalmente. Quando conseguimos nos superar nas coisas difíceis, tem um retorno mais gratificante. E não só pelo retorno, mas pelo crescimento.

Casa Santo Antônio, Nommo Arquitetos.

L: É um bom conselho! E falando mais sobre o trabalho, em quais momentos você sentiu seu trabalho reconhecido?

F: Sinto-me reconhecida quando os arquitetos me chamam para ajudar. Sou muito prestativa e me sinto útil nesses momentos. Também me senti reconhecida com o lançamento do Zait, empreendimento da Construtora Pride, que desenvolvi desde o início na Nommo.

L: Tem alguém que você tem admirado, que tem te inspirado ultimamente?

F: O meu pai é o meu maior exemplo de superação que eu tive desde muito jovem. Ele veio de uma família muito humilde, da periferia e ele conseguiu se desenvolver e crescer, e conquistar tudo o que a gente tem. Ele sempre me incentivou muito a conquistar os meus sonhos, a fazer tudo o que eu queria, e tinha momentos que ele falava as coisas e eu queria brigar, e quanto mais o tempo passa, mais eu entendo que tudo que ele me dizia era muito verdade.

L: Uma última pergunta, você tem algum livro, filme, série ou conteúdo que te inspira?

F: Difícil escolher uma coisa só. Adoro ficção científica e fantasia, então tenho muitos livros para indicar. Mas lembro de um canal no YouTube, o Matt D’Ávella, que fala sobre minimalismo como estilo de vida. Acompanho há mais de cinco anos. Nunca fui uma pessoa que gostou de ter muitas coisas. Quando fui para o intercâmbio, tinha um guarda-roupa de duas portas e usava tudo o que tinha. Não sentia necessidade de ter mais. Quando voltei, me deparei com um armário cheio de coisas que não sentia falta.