
Com especialização em História da Arte e mestrado pela UEL/UEM associado ao mesmo tema, a Sócia da Proa Arquitetura Integrada, Stefanie Freiberger já atuou em diversas escalas, desde patrimônio histórico, a projetos hospitalares e para o mercado imobiliário. Atualmente, faz parte da diretoria do Asbea-PR, e nessa entrevista, ela nos conta que tem se dedicado as relações públicas do escritório, somando seus 25 anos de carreira à sua personalidade extrovertida e comunicativa.
Luana: Pode me contar um pouco sobre sua formação? Onde você estudou? Como escolheu arquitetura?
Stefanie: Sempre quis fazer arquitetura. Desde criança, gostava de desenhar plantas de casas e montar a casa da boneca. Quando chegou o momento do vestibular, estava claro que queria arquitetura.
L: Alguém da sua família trabalhava com construção?
S: Não, a maioria na minha família é da área de direito. Meu pai foi juiz, então mudávamos muito. Comecei o colégio com 5 anos em Itajaí. Quando decidi por arquitetura, só havia opções em Florianópolis ou Curitiba, pois poucas faculdades privadas ofereciam o curso.
A família da minha mãe é de Curitiba e eu passava as férias lá, então gostava da cidade. Vim para Curitiba no terceiro ano, fiz cursinho e fiquei em dúvida. Com a Eco92 e a questão da preocupação ambiental surgindo, pensei em ajudar o planeta. Mudei de planos e me inscrevi em Engenharia Florestal na UFPR e em Arquitetura na PUC, passando nas duas. Entrei em Engenharia Florestal com 16 anos, mas no segundo ano percebi que não era o que queria.
Prestei vestibular novamente e, em 1992, entrei em Arquitetura na UFPR. Tive dois primeiros anos de faculdade, que são os melhores.
L: O primeiro ano é muito bom.
S: Sempre amei arquitetura, mas é um curso puxado. Tínhamos aulas de manhã e à noite, e a tarde era livre para estágios. Não sobrava tempo para nada, virávamos noites trabalhando. Desde o primeiro ano, fiz estágio, mas sempre sentia que faltava algo nas entregas. É um sentimento que só recentemente parei de ter.
L: Como foi sua jornada profissional até aqui? Por onde você passou antes de abrir seu escritório?
S: Eu sempre fiz estágio. Quando terminei a faculdade, fui efetivada no escritório da Sabrina Slompo e do Luiz Bacoccini, que na época eram sócios. Trabalhei com edificações para o mercado imobiliário e clínicas médicas. Gostava muito dessa área. Também estagiei no IPHAN, eu sempre gostei de história, arte e patrimônio, mas me identifiquei mais com edificações.
No escritório, eu fiquei um ano e meio como estagiária e um ano como arquiteta, mas sem perspectivas de crescimento. Decidi voltar para Itajaí, onde comecei a trabalhar com uma amiga engenheira de Balneário Camboriú. Desenvolvemos projetos de interiores, clínicas, consultórios e até projetamos dois edifícios.
Namorava o Gustavo, meu marido, e para que nos casássemos, voltei para Curitiba. Continuava atendendo projetos de Balneário Camboriú, mas minha atividade diminuiu. Nesse período, minha sogra, secretária de estado da cultura, me indicou para a Coordenadoria do Patrimônio Cultural, onde trabalhei por quatro anos em uma equipe multidisciplinar. Fiz projetos como o restauro do Museu da Imagem e do Som.
Após quatro anos, queria explorar outras possibilidades de carreira, mas minha sogra me ofereceu a direção do Museu da Imagem e do Som, uma vez que eu tinha participado de todo o projeto de restauro e conseguimos recursos pela Lei Rouanet. Eu também tinha me especializado em História da Arte, então aceitei a proposta, onde fiquei até o fim da gestão, ganhando muita experiência.
Depois, trabalhei com Gustavo Pinto como coordenadora técnica, atendendo o mercado imobiliário e a área hospitalar. Era um período de reestruturação do escritório, com projetos grandes em São Paulo. Inclusive, participei de um projeto em Santo André, uma ampliação de um hospital que foi projeto do Vila Nova Artigas, da década de 40. O Gustavo me possibilitou esse papel de lidar com o público, com os clientes, e ir em eventos. Aprendi muito com ele, mas eu estava buscando mais.
Saí e fui para outro escritório como coordenadora técnica, focada na compatibilização de projetos. A empresa atendia contratos de licitação, com setores de arquitetura, engenharia elétrica, hidráulica e orçamento.
L: Nossa, era uma abrangência grande.
S: Era uma empresa grande, mas mal gerida, e me contrataram tentando minimizar danos. Trabalhavam com licitações para Receita Federal, universidades e órgãos públicos. Os projetos tinham um escopo grande e, se o fiscal não aprovasse, precisávamos refazer até ser aceito. Só recebíamos algum valor com a autorização do fiscal. Esses projetos são bem pagos, mas exigem planejamento e métodos precisos, pois são complexos.
L: Nas empresas privadas, podemos negociar ajustes e liberação de parte do pagamento.
S: Exatamente. Em licitações, é rígido, com controle rigoroso do tribunal de contas, pois envolve dinheiro público. Quando me chamaram, a empresa já estava em situação complicada. Prometeram um alto salário, mas depois entendi que não poderiam pagar. A prioridade era entregar projetos para a Universidade Federal de Lavras, incluindo blocos acadêmicos, ginásio e laboratório em 6 meses.
L: Quantas pessoas na equipe?
S: Tinha mais duas arquitetas e três estagiários. Foi insano, mas entreguei. Plotei o cronograma de entrega por etapas e negociamos novas datas com a universidade. O volume de trabalho era enorme e, a partir do segundo mês, o salário começou a atrasar. O fiscal confiava em mim e aceitou a entrega com base nessa confiança. Entrei em junho e, em dezembro, vi que a empresa não tinha solução. Pedi demissão, mas eles não deixaram. Passei a trabalhar meio período, e em março, quando iam se mudar para Pinhais, pedi demissão definitivamente devido à logística familiar e ao salário atrasado. Entrei com um processo trabalhista contra eles no fim.
Depois, decidi fazer mestrado, que sempre quis, mas nunca tive tempo. Transformei o artigo da especialização, sobre a relação das obras do Vila Nova Artigas com a arte concreta, em um projeto de pesquisa e me apliquei para o mestrado na UEL/UEM. Viajava semanalmente para Maringá e Londrina para aulas, era puxado, mas amei. Pensei em dar aulas, mas a realidade da docência desanimou, o salário era muito baixo. Até prestei um concurso para professor substituto na UTFPR, passei em quarto lugar, mas fiquei desanimada. Decidi voltar a fazer projetos.
Naquela época, a conversei com Juliana, da Proa. Ela também dava aulas, e perguntei mais sobre o escritório. Conhecia o Rodrigo dos eventos comerciais na área de arquitetura, então marquei uma reunião e disse que queria trabalhar lá. Eles precisavam de alguém para a integração de projetos, e com minha expertise em compatibilização e coordenação de equipe, aceitei a posição de coordenadora da equipe de integração, cuidando de dois contratos inicialmente.
L: Como foi o processo para você se tornar sócia da Proa?
S: Quando entrei, os sócios eram Rodrigo, Lua, Eric, Claudina e Juliana Tomaz. Logo, Juliana saiu e ficaram quatro sócios. Durante a pandemia, conversei com Lua sobre querer mais responsabilidades e ela comentou que eles gostavam muito do meu trabalho e queriam que eu ficasse. Após dois anos na Proa, fui convidada a ser sócia para ter crescimento na empresa. Aceitei e hoje somos cinco sócios: eu, Claudina, Lua, Eric e Francine. Temos uma ótima sinergia e objetivos comuns.
Antes de eu entrar na sociedade, os sócios já estavam reestruturando a empresa, focando no mercado imobiliário. Quando entrei, isso já estava consolidado, e assumi o setor de arquitetura e a condução do setor de integração de projetos.
L: O que mudou ao se tornar sócia no seu dia a dia?
S: Foi fundamental. Trabalhar na empresa que é minha é muito mais gratificante. Já tive outras experiências, mas esse formato colaborativo com sócios é o melhor. Todos se apoiam e dividem responsabilidades. Agora, estou focada em relações públicas, contato comercial e comunicação, aproveitando meus 25 anos de experiência na arquitetura.
Estamos redefinindo a Proa, como um projeto de vida, com um propósito claro. Nosso foco é no mercado imobiliário, com a responsabilidade de criar bons prédios que impactam a cidade. Precisamos equilibrar números, qualidade e satisfação do cliente final. Trabalhar com o mercado imobiliário é um desafio constante de entregar qualidade para o morador final e manter o cliente feliz.
L: Como decidiu participar da diretoria do Asbea-PR? Como é o seu envolvimento e de onde surgiu essa vontade?
S: Sempre gostei de relações públicas, do comercial e de me envolver nas atividades da profissão. O Frederico sugeriu que alguém da Proa integrasse a diretoria da Asbea, pois já fazíamos parte da associação, mas não estávamos participando ativamente. Decidi participar e entrei para o conselho deliberativo. O Fred, presidente, valoriza a colaboração e não acredita em hierarquia, então ele ouve todas as ideias. Logo fui convidada pela Juliana, coordenadora dos grupos de trabalho, para ser sua assessora e ajudar a organizar os grupos. Criamos o Asbea Meet e já realizamos três encontros. Estou sempre envolvida nas reuniões, eventos e atividades. É uma maneira de recolocar a Proa no circuito e contribuir com a nossa classe.
Acredito na importância da Asbea para melhorar a imagem e a remuneração da nossa profissão. Antigamente, a relação entre escritórios e construtoras era desequilibrada, e os escritórios perceberam que precisavam se unir. Pretendo continuar na associação e, quem sabe, ser presidente no futuro. Precisamos nos unir e ter força para conquistar melhorias.
L: Gostaria de saber sobre a maternidade. Você sentiu que isso impactou sua carreira?
S: Tirei licença maternidade enquanto trabalhava no estado, o que foi fundamental. Pude ficar em casa por seis meses, amamentar meu filho e não tive problemas. Quando voltei a trabalhar, contratei uma babá e depois coloquei meu filho na creche. Fui privilegiada, mas sei que não é assim para todas as mães. A realidade das mulheres é sempre mais difícil. Tive sorte, pois meu filho foi tranquilo e meu marido entende sua função como pai.
Entretanto, como mulher, às vezes sinto que ainda vivemos em um mundo masculino. Em muitos momentos, pensei que se eu fosse homem, receberia melhor. Por isso, gosto desse formato de sociedade na Proa. No mercado de trabalho, as mulheres ainda ganham menos que os homens e senti essa descriminação muitas vezes.
L: Como você lidou com esses momentos? Como isso te afetou?
S: Me desafiou a mostrar meu valor. Estamos sempre nos provando, o que cansa, mas é necessário nos posicionar e colocar nossa opinião.
L: Eu demorei para entender que precisava me posicionar. É cansativo, mas é o caminho. Você teve algum mentor ou inspiração na sua trajetória?
S: Não tive um mentor específico, fui muito autodidata. Algumas pessoas me deram conselhos, mas não tive uma figura específica. Procuro ser mentora e empoderar outras mulheres, estagiárias e amigas. Fico gratificada quando confiam em mim e procuro retribuir.
L: Qual conselho daria para você mesma no início da carreira?
S: Acho que tomei as decisões certas para os contextos em que vivia. Nunca me faltou confiança, talvez até tenha tido confiança demais. É importante não se torturar pelas decisões tomadas. Hoje eu considero que estou em um momento bom, onde posso aplicar todas as vivências da minha carreira.
L: Sente que atingiu seus objetivos?
S: Eu acho que este momento vem realmente coroar essa trajetória. Finalmente, tenho algo meu onde aplico todo meu conhecimento e esses 25 anos de vivências. Agora, só falta ganhar dinheiro [risos]. Mas isso é consequência de um trabalho bem-feito.
L: E por último, tem algum livro, filme ou referência que gostaria de compartilhar?
S: Fotografia, filmes, arte. Acredito que precisamos buscar tudo isso. Tenho esses dois lados: gosto de projetos complexos e adoro o mundo das artes. Meu mestrado foi vinculado a arte e filosofia. O arquiteto tem afinidade com a sensação do espaço, visão do todo e conforto, e com a percepção de quem vai morar no lugar. Literatura, fotografia e cinema são complementares ao nosso trabalho.