
Arquiteta e Urbanista com pós-graduação em Gerenciamento de Projetos e Mestrado em Engenharia de Construção Civil, atualmente Doutoranda na mesma área com ênfase em BIM (Building Information Modeling) e IPD (Integrated Project Delivery). Sócia e Diretora de Criação na ArchIn com 10 anos de experiência no mercado imobiliário e know how de concepção e gestão completa de projetos de edifícios na metodologia BIM desde a viabilidade até a entrega final do empreendimento, totalizando 1,5 milhões de metros quadrados desenvolvidos. Além disso, atua como Professora de pós-graduação lato sensu, com cerca de 6 anos de experiência em docência nos temas de processo de projeto integrado, planejamento e custos de obras com BIM.
Luana: Paula, por que você escolheu o curso de arquitetura? Como foi essa tomada de decisão?
Paula: A verdade nua e crua? [risos] Passei por muitos dilemas na escolha do curso. É sempre uma decisão difícil. Quando você tem 17 anos e te perguntam o que você quer ser pelo resto da vida, é muita pressão. Durante boa parte da minha adolescência, eu tinha certeza de que seria médica. Minha tia trabalha com enfermagem e comecei a me aproximar dessa área, fazendo trabalho voluntário em hospitais. Gostava muito de pediatria e trabalhei no hospital Pequeno Príncipe. Mas, uma das últimas vezes que estive lá, presenciei cenas muito difíceis e percebi que não conseguiria lidar com aquilo. Decidi que só me via na medicina se fosse em pediatria, mas acabei desistindo.
L: Caramba, que decidida!
P: Ao mesmo tempo, sempre fui muito ligada à criatividade. Sempre me envolvi com várias formas de expressão: música, teatro, escrevia, desenhava. Quando comecei a focar nisso, percebi que queria algo voltado à criação e cheguei à arquitetura. Meu pai até sugeriu engenharia civil, mas eu disse: “Deus me livre! Isso não!”. E assim decidi seguir para a arquitetura.
L: E como foi a faculdade para você?
P: A faculdade foi uma experiência um pouco diferente para mim. Fui privilegiada porque os pais de uma amiga eram meus professores em diversas disciplinas. Já os conhecia antes de entrar na faculdade e eles me ajudaram muito. Me ensinaram muitas coisas e até me ajudaram a conseguir meu primeiro emprego. Sempre que eu tinha dúvidas, podia recorrer a eles, algo que os outros alunos não tinham a mesma facilidade. Foi muito positivo para mim.
L: Você teve muito suporte deles e podia contar com eles.
P: Exato. Se eu tinha alguma dúvida em projeto, podia conversar com eles. Isso foi uma vantagem. Mas, vejo que a universidade ainda tem essa separação e tendência a focar mais em interiores, faltando maturação no currículo para inserir os alunos no mercado imobiliário. Se não fosse pelos escritórios em que trabalhei, talvez não estaria trabalhando com o que trabalho hoje. Entrar no mercado imobiliário é extremamente difícil, especialmente para mulheres. A PUC foi uma boa universidade para mim, mas acho que poderiam dar mais atenção ao ciclo de vida do projeto, desde o início até o fim, e ensinar a interface entre diferentes disciplinas, como arquitetura e engenharia.
L: E como foi o começo de carreira? Como foi a transição dos estágios para o primeiro emprego?
P: Meu primeiro estágio foi em uma marcenaria. A dona era amiga da minha mãe e eu estava no final do primeiro ano da faculdade. Precisava começar a fazer algo para entender como funciona. Trabalhei detalhando móveis, uma microescala. Foi interessante para aprender, mas hoje não lembro de nada. Depois, conversei com o Braulio, e comecei a trabalhar na Sobe Arquitetura. Trabalhei lá por um ano e meio. Depois, fui para um escritório de engenharia, onde era suporte de uma arquiteta que fazia compatibilização de projetos.
L: Nossa, você foi direto para compatibilização de projetos!
P: Sim, porque com o Braulio eu já trabalhava com orçamentação e projetos executivos, que envolviam compatibilização. Então, consegui essa oportunidade no escritório de engenharia, trabalhando com edifícios públicos, como delegacias. Fiz um levantamento numa delegacia em operação, que foi um grande desafio. Isso me ensinou muito sobre o contexto e a desumanização de certos projetos. Aprendi que nem tudo na carreira serão flores; 90 de 100 não serão.
Depois, passei por mais um escritório de arquitetura, trabalhando com projetos de edifícios, shoppings, supermercados. Voltei à escala de edifícios, onde já tinha experiência da Sobe Arquitetura. Tinha uma equipe majoritariamente feminina e uma chefe muito acessível, que me ensinou muito. Ela me dava oportunidades para tomar frente nos projetos. Era uma pessoa que dizia: “Vai lá e faz, se der errado, a gente vê, mas você tem que tentar”. Trabalhei um ano com ela, me formei bem na época da crise imobiliária, quando o mercado estava muito ruim.
L: Foi em 2015, todo mundo que saiu da faculdade não conseguia emprego.
P: Sim, eu consegui sair empregada, mas em condições muito ruins, financeiramente falando. Saí recebendo o dobro do que ganhava como estagiária, ou seja, R$ 1.200,00 na carteira assinada, com alguns descontos. Fiquei um ano trabalhando, viajando muito porque a sede da Renner fica em Porto Alegre, e passava 15 dias viajando, às vezes trabalhando sábado e domingo. Quando estava para completar um ano lá, conversei com meus pais porque as condições de trabalho eram exploratórias. Era pouquíssimo dinheiro para excesso de trabalho, e eu não conseguia fazer esse dinheiro render. Então voltei para a academia, voltei a estudar, porque precisava entender como achar meu diferencial no mercado. Naquele momento, estava muito claro para mim que o mercado estava saturado. Profissionais recém-formados muito competentes e, ao mesmo tempo, sem demanda de trabalho. Juntei todo o dinheiro que pude e coloquei em uma especialização. Essa foi a migração.
L: Quando você decidiu fazer essa pós, a especialização, ainda não era o mestrado, era?
P: Era uma especialização em gestão de projetos. No escritório onde trabalhei como arquiteta, em pouco tempo me tornei o braço direito da minha chefe. Ela me dava cada vez mais liberdade na coordenação de projetos, desde as responsabilidades com os estagiários até a produção de desenho, enquanto ela tratava com os projetistas. Na época, não se tinha o hábito de ter uma empresa gerencial; a arquitetura fazia tudo. Como desenvolvedores de projeto, tínhamos a responsabilidade de fazer todo o cronograma, puxar as reuniões. Hoje em dia, é mais comum ter uma gerenciadora à frente. Então saí do escritório de olho nisso, com projetos cada vez mais complexos, e a demanda parecia só aumentar. Mas para trabalhar com projetos complexos, é preciso estudar, ter experiência e estudo. Busquei a PUC, onde como ex-aluna, teria um desconto. Falei com a professora Gisele Dziura, que atuava em uma área similar, e ela achava que era uma boa ideia. Entrei na especialização de gestão de projetos dentro do curso de administração.
L: Teve algo que você sentiu falta na especialização e que te fez buscar o mestrado?
P: A especialização navega por vários tópicos de forma superficial. Se fossem aprofundar tudo, não haveria tempo. Entendi que precisava entrar em mais detalhes, pois ficaram muitas lacunas abertas na minha cabeça. Quanto mais eu estudava gestão de projetos, mais via a necessidade de focar em integração e melhoria do processo colaborativo para desenvolvimento de bons projetos. Decidi fazer um mestrado em gestão de projetos. Peguei o currículo da UFPR, pesquisei os especialistas da área, falei com o Scheer, que se tornou meu padrinho de carreira. Trocamos muitos e-mails sobre o projeto e, em determinado momento, eu tinha um plano de pesquisa elaborado.
Organizando a ideia temporal, comecei a especialização seis meses após me formar. Quando estava perto de terminar, decidi fazer o mestrado e pedi demissão para estudar.
L: Qual foi o teu tema de pesquisa especificamente?
P: Foi a elaboração de diretrizes para implementação de usos BIM voltados ao planejamento e custos de obra. Eu precisava selecionar algumas empresas para fazer estudo de caso. Na segunda empresa que visitei, ao explicar o projeto, eles me fizeram uma proposta de trabalho. A proposta era desenvolver o projeto parte do tempo e dedicar o restante às tarefas deles, voltadas à gestão de projetos.
Comecei a trabalhar na Cron, e os sócios eram receptivos e queriam investir em inovação. Durante o projeto do mestrado, passei por dois ou três edifícios, fazendo ciclos de avaliação e ordenação dos dados até obter resultados. Dois amigos meus tinham uma empresa chamada CWBim, que foi parcialmente comprada pela Cron, isso ajudou bastante no desenvolvimento, porque eu os conhecia e eles já tinham uma maturidade de desenvolvimento.
L: Que bacana! E quanto tempo você ficou lá?
P: Fiquei como estagiária de mestrado por um ano e meio, com jornada reduzida, pois ainda tinha algumas disciplinas. Nesse período, comecei a dar aula na UniAndrade à noite, o que descobri ser uma paixão.
L: Nossa, que legal!
P: Quando o contrato de estágio estava acabando, me propuseram ficar como gerente de projetos. Os diretores da Cron são muito acessíveis, e aprendi muito com o diretor técnico, que me incentivava a ir ao canteiro de obras para entender a prática. A produção civil brasileira é manual e tem uma variável humana, então mesmo com projetos 100% compatibilizados, há dificuldades na execução.
L: Você já comentou de algumas pessoas que influenciaram sua carreira. Tem mais alguém que te guiou até aqui?
P: Com certeza. Meu orientador do mestrado é uma figura chave, extremamente importante. Ele direcionou as empresas que entrevistei na pesquisa e abriu inúmeras portas para mim. Continuamos em contato, tenho muito carinho por ele. É uma pessoa cheia de conhecimento.
L: E como foi o início da Archin? Como surgiu essa ideia?
P: O início surgiu, na verdade, por demanda. Foram duas demandas: uma interna minha e uma externa, a busca de terceiros. Eu estava na Cron, onde eles estavam abrindo um escritório focado em desenvolvimento de projetos internamente. Trabalhei algum tempo lá, dando suporte direto à parte de desenvolvimento de produto, estudo de viabilidade, estudo de massa e às vezes desenvolvendo algum estudo preliminar.
No escritório de projetos da Cron, desenvolvíamos os projetos executivos de arquitetura, porque eles tinham seu modo de execução e os prazos eram muito curtos, tudo urgente. Por conta dessa rotina, aprendi cada vez mais sobre planejamento e equalização do processo, fazendo cronograma, vendo a obra de trás para a frente e encaixando uma demanda na outra.
Nesse cenário, lidando mais com a parte executiva, coordenando a equipe de arquitetura, elétrica, hidráulica e estrutura, com aproximadamente 12 pessoas, percebi que sentia falta da parte de criação. Isso gerou uma ansiedade cada vez maior dentro de mim. Essa foi a primeira demanda, um grito psicológico.
Somado a isso, comecei a receber demandas diretas de outras empresas pedindo para atuar como consultora na implementação BIM. Obviamente, com minha rotina na Cron, isso começou a concorrer. Os diretores não estavam interessados em trazer isso para dentro, porque não fazia parte da estratégia da empresa. Nesse momento, pensei: “Vou tentar encarar isso, porque quero voltar para arquitetura.”
Foi no meio da pandemia que a empresa se formou. Quando saí, sabia que não poderia falhar. Parece que foi uma decisão rápida, mas foi um processo de um ano de pensar, conversar com eles e entender o local das coisas. Mesmo com terapia, é difícil. O mercado é extremamente fechado e machista. É muito difícil entrar no mercado imobiliário, e é um grande desafio. Ter passado pela Cron trouxe muitos contatos, me fez conhecer muitas pessoas, trabalhar com outras tantas. Isso abriu muitas oportunidades, mas tive que ter muita coragem. Não fiquei segura em nenhum momento. Sou muito racional, então coloquei algumas metas. Quando decidi abrir a empresa, tinha guardado dinheiro durante um tempo e feito um planejamento do que precisava investir. Uma das metas era que tinha seis meses para fazer virar um número x de contratos. Passei mais de três meses sem parar, ligando para mais de 200 empresas, tentando marcar uma reunião para mostrar o que eu fazia. No começo, foi difícil, porque as empresas buscam quem já tem algo feito, para mostrar o resultado.
Mas, nesse período de seis meses, deu certo e consegui alguns contratos. Deu tão certo que tive que chamar o Hugo para ser meu sócio. Ele é engenheiro civil e planejamento para ele era algo novo, mas ele entrou. Pouquíssimo tempo depois, o Mateus entrou, e daí você sabe bem história, em um ano estávamos com 10 pessoas na equipe.
Deu muito medo e ainda dá. Acho que nenhum empresário vive 100% em paz. O medo no começo era não conseguir sobreviver até o final do ano, e agora o medo é ter várias pessoas para pagar. Mas foi assim, com muita terapia e suporte familiar. As pessoas ao meu redor acreditavam muito que daria certo e, em nenhum momento, achavam que era possível dar errado. E acho que isso, somado ao fato de eu saber que não poderia dar errado, me fez dar tudo de mim. Sabia que tinha que dar certo.


Projeto desenvolvido pela ArchIn, para o Concurso WeeFor.
L: Eu imagino que você superou e adquiriu muitas habilidades nesse tempo, desde a abertura da empresa.
P: Sem dúvida nenhuma. Quem me conhece sabe que a minha habilidade de interação social é extremamente reduzida e tive que vencer isso do dia para a noite. Realmente, tive que reaprender muita coisa em termos de liderança de pessoas. Conforme o escritório foi voltando cada vez mais para a arquitetura, é um núcleo diferente de trabalhos. São perfis completamente diferentes dos de engenharia. É um constante aprendizado e reavaliação. Meus amigos falam que o período em que eles me veem mais animada é quando estou falando do meu trabalho.
L: Você tem dicas para jovens arquitetas ou para arquitetas que estão abrindo o próprio escritório?
P: Eu acho que tem algumas coisas que são extremamente importantes. Primeiro, você precisa acreditar em você. É difícil, nunca está bom o suficiente e vamos nos sabotando. Uma frase que repito é que o feito às vezes é melhor do que o perfeito. Isso não significa renunciar à qualidade, mas entender o limite.
Comece a ouvir críticas para saber onde melhorar, mas as críticas das pessoas que realmente importam, que vão ajudar você a se posicionar melhor. Nossa autocrítica muitas vezes mais nos sabota do que ajuda. A maior dificuldade é sair da autocrítica de buscar a perfeição. A principal dica é acreditar em você mesma. Não economize tempo em fazer contatos, porque ninguém faz nada sozinho.
Quando comecei o escritório, fiz contato com 200 empresas em 3 a 4 meses, umas 50 me retornaram e consegui reunião com umas 12. Você tem que focar no resultado positivo. Fala com 200 empresas para fechar 2 contratos, e não necessariamente contratos que vão trazer retorno financeiro imediato, às vezes é só para conseguir entrar no mercado. E isso é importante.
L: Onde você está na sua carreira hoje? Você sente que já atingiu o lugar que buscava?
P: Acho que estou bem no início ainda de onde pretendo e gostaria de chegar. Tudo é muito recente, ainda temos muito para aprender e para entregar. Sou muito grata pelo que conseguimos alcançar e acho que tem um grande mérito de todos que participaram da equipe. Somos muito sortudos por cada pessoa que passou e ajudou em muita coisa. Mas ainda temos muito para alavancar. A equipe tem muita ânsia por crescimento, e eu quero poder corresponder a essa expectativa deles.
L: Tem algum valor ou conceito seu que você tenta aplicar nos projetos?
P: As escolas de arquitetura de Curitiba têm muita inclinação ao modernismo, que tem conceitos marcantes que me agradam muito. Gosto muito do modernismo brasileiro pela originalidade e imposição magnífica. Tenho alguns livros no escritório que às vezes busco para estudar, ver como funciona, discutir o conceito, o detalhe, a materialização.
L: Você tem algum livro, série ou filme que gostaria de compartilhar?
P: Tem um livro que li em um período de grandes decisões, “A morte é um dia que vale a pena viver”, escrito pela médica Ana Claudia Quintana Arantes, sobre cuidados paliativos. Ele traz diversas histórias, é bem intenso e falou muito comigo em muitas camadas. Não é uma leitura fácil, mas faz a gente repensar muita coisa. Pelo menos para mim, foi assim. Então é um livro que ficou latente na minha memória.